Quando a dor chega sem tocar a campainha

A dor tem a educação de um primo que aparece sem avisar na hora do almoço. Não manda mensagem, não pergunta se é boa hora, não espera você terminar o que estava fazendo. Ela simplesmente entra, senta no melhor lugar do sofá e fica. Um fim, um diagnóstico, uma perda, uma frase dita numa discussão que você nunca mais consegue desouvir. E aquele chão que parecia firme resolve virar gelatina.

Vou ser honesta: às vezes é preciso um baque pra gente acordar. E não, eu não vou embrulhar a dor num laço fofo e chamar de "bênção disfarçada" (detesto essa frase, ela quase sempre é dita por quem não tá sentindo nada no momento). Mas tem uma verdade meio sem graça no meio disso: no susto, um monte de coisa que a gente vinha varrendo pra debaixo do tapete há anos aparece de uma vez. A dor tem essa lucidez cruel: sacode com força e derruba no chão tudo que estava mal guardado, inclusive aqueles "depois eu resolvo" que já tinham feito aniversário.

Ninguém apaga a dor, e eu preciso dizer isso com todas as letras, porque tô de saco cheio de fórmula que promete superação em cinco passos e final feliz com data marcada, tipo entrega de pizza. Não funciona assim. O que a gente aprende, tropeçando bastante, é a dançar com ela. Deixar a danada ocupar o cantinho dela sem deixar tomar conta da casa inteira. Seguir vivendo, rindo de novo, querendo de novo, sem sentir que isso é traição. E um belo dia, quase sem perceber, notar que aquilo que parecia o fim do mundo era, na real, uma porta. Meio emperrada, mas porta.

E isso não acontece do dia pra noite, com direito a montagem musical de filme. Acontece devagar, no meio da louça, no ônibus, chorando num sinal vermelho e depois rindo de algo bobo dez minutos depois, porque o coração humano é essa criatura confusa que faz as duas coisas quase juntas. Faz parte. Ninguém sai da dor em linha reta; a gente vai em ziguezague, e ziguezague também chega do outro lado.

 

E se a pergunta não for "quando isso passa", mas "o que isso está tentando me mostrar que eu vinha fingindo não ver"?