O fim a gente quase nunca controla. Ele chega na hora dele, do jeito dele, muitas vezes sem pedir licença e sem mandar aviso prévio (que falta de educação). Um relacionamento que acaba, uma fase que fecha, um emprego, uma amizade de anos, uma versão nossa que já não cabe no corpo de hoje. Por mais que a gente segure com as duas mãos, implore, negocie e prometa mudar dessa vez de verdade, quando termina, termina. É ponto final. E ponto final, meu bem, não aceita recurso.
Mas eu descobri, no meio de mais de um fim que eu não pedi, que tem uma parte da história que é minha pra escrever: o recomeço. E se o fim é ponto final, o recomeço é reticências. Aquelas três marquinhas folgadas que não fecham a frase, que deixam em aberto, sugerem continuação, cochicham "ainda tem mais, só ainda não sei o quê". Reticências são pura possibilidade de pijama, esperando a próxima cena.
Recomeçar não é esquecer. Detesto quando dizem isso, como se seguir em frente fosse apagar o que doeu e fingir que a página nunca existiu. Eu não apago, nem quero. Eu dou nova forma ao que aconteceu. Pego o material bruto da perda (o aprendizado, a cicatriz, até a saudade teimosa que insiste em ficar) e construo outra coisa com ele. O recomeço não nega o fim; ele nasce depois, usando justamente o que sobrou como alicerce. Casa nova no terreno da antiga, com encanamento melhor.
E, sim, tem dia em que a linha em branco assusta mais que o ponto final, a folha vazia intimida qualquer um, ainda mais quando a caneta treme. Mas folha em branco também é a coisa mais cheia de possibilidade que existe: cabe qualquer história ali, inclusive uma bem melhor que a anterior. E tem a parte que mais me alivia: o recomeço é escolha, não sorteio. O fim me acontece; o recomeço eu decido. Posso demorar, posso tropeçar, posso recomeçar mal umas duas ou três vezes antes de acertar (e olha que eu treinei). Mas a caneta que escreve o depois é minha.
O que, em você, está pedindo um recomeço agora? E o que você escreveria nessa linha em branco se ninguém estivesse olhando?