Não quero me encaixar (cansei de ser contorcionista)

Passei boa parte da vida me espremendo pra caber. Encolhendo opinião pra não incomodar, baixando o volume da risada, aparando as arestas da personalidade, ajustando meus contornos ao molde que parecia esperado de "uma mulher como eu". E toda vez que eu conseguia caber, vinha um alívio de dois segundos seguido de um vazio comprido, porque caber, fui descobrindo, custa pedaços da gente. E tem pedaço que não volta fácil.

Chega uma hora em que a conta não fecha. Você percebe que passou tanto tempo se ajustando a molde emprestado que já não lembra qual era o seu formato original, antes de tanto aparo e tanto "vira pra cá que fica melhor na foto". E aí surge uma frase que é quase um ato de rebeldia de cinema: eu não quero me encaixar. Não quero mais me diminuir pra caber num espaço que nunca foi desenhado pra mim, num lugar que só me aceita pela metade e ainda reclama do troco.

Ser margem, curva, desajuste. Ser inteira em vez de aprovada. Dito assim, na lata, assusta, mas é o exato oposto do que ensinaram. Porque a mulher que cabe em tudo raramente cabe em si mesma. Ela vira camaleoa profissional de tanto se adaptar e um dia não lembra mais qual é a própria cor. E existe uma liberdade imensa, quase vertiginosa, em aceitar que você não foi feita pra caber em todo lugar, que tem espaço que simplesmente não é seu, e tá tudo bem, você não precisa se entortar feito contorcionista de circo pra pertencer a ele.

Não é sobre ser difícil ou do contra por esporte. É sobre parar de tratar a própria inteireza como um problema a ser corrigido, um excesso a ser domado. É preferir ser você, mesmo desajustada, mesmo ocupando espaço, a ser uma versão aparada que agrada geral e não pertence a ninguém, nem a você. Aprovação é confortável, eu sei, é quentinha. Mas eu troquei o conforto morno de caber pela alegria inteira de ser.

 

Em que mesa, grupo ou relação você se encolhe pra pertencer? E o que de você fica do lado de fora pra conseguir entrar?