Existe um cansaço que sono nenhum resolve. É o cansaço de quem carrega o mundo nas costas: a casa, o trabalho, os filhos, a agenda de todo mundo, o aniversário da tia, o remédio que tá acabando, o presente que precisa comprar, a consulta que ninguém marcou e que magicamente virou sua responsabilidade. A mulher que "dá conta de tudo" costuma dar conta de tudo, menos de uma coisinha: de si. E ainda carrega isso como troféu, como se viver exausta fosse o comprovante de que está fazendo o bastante.
Aqui vai o que ninguém conta no chá de bebê da vida adulta: mulher sobrecarregada não faz arte. Faz lista. Não é por falta de talento nem de vontade, é por falta do espaço vazio de onde a arte nasce. Criar, sonhar, desejar, ter ideia boba às três da tarde: tudo isso precisa de um vazio fértil, de um ócio sem culpa, de horas em que a cabeça não está resolvendo pendência dos outros. E adivinha a primeira coisa que a sobrecarga rouba? Esse vazio. Quando cada minuto já tem dono, não sobra brecha pro inesperado, e é sempre no inesperado que mora o que há de mais vivo na gente.
Demorei pra entender que descansar não é o oposto de produzir, é condição pra criar qualquer coisa que preste. Que a mulher que corre o dia inteiro chega à noite sem nada seu pra oferecer a si mesma, esvaziada até de si. E que viver sempre ocupada é, muitas vezes, uma forma socialmente aplaudida de nunca se encontrar: enquanto tem tarefa, não tem silêncio; e enquanto não tem silêncio, a gente não escuta o que estava tentando dizer por dentro.
Não é fazer menos por preguiça, é reconhecer que você não é uma engrenagem, e que sua vida não precisa ser só um checklist infinito. Existe prazer, existe criação, existe uma versão sua (curiosa, criativa, meio moleca) que só aparece quando você para. Ela não morreu, viu? Só tá esperando você abrir uma nesga de espaço.
O que nasceria em você se sobrasse um vazio sem tarefa nenhuma dentro? E o que te impede de deixar esse vazio existir?