Desfrutar do voo do outro: amar sem virar GPS

Durante um bom tempo eu confundi amor com controle. Achava que amar era saber onde o outro estava, o que sentia, com quem falava, que cuidado se media em monitoramento e que ciúme era prova de afeto, quase um elogio de boa índole. Ninguém me ensinou isso com essas palavras, mas foi o que eu absorvi vendo, repetindo, seguindo o manual que estava em todo lugar. Amar era, no fundo, prender com carinho. E rastrear com jeitinho.

Demorei a entender que amar não é aprisionar o outro no mesmo céu que eu escolhi. As relações maduras (as que valem a pena, as que sustentam de verdade) não cortam asas. Elas comemoram a autonomia. É olhar o voo de quem se ama e sentir alegria genuína, e não um aperto no peito. É confiar o bastante pra não precisar segurar pelo tornozelo. Dois adultos que se escolhem todo dia, cada um com suas asas, voando lado a lado, não um em cima do outro, não um dentro da gaiola do outro, e definitivamente não um bancando o GPS do outro em tempo real.

É mais difícil do que parece, e eu seria uma mentirosa se dissesse que é fácil. Porque o amor que controla se disfarça de zelo com talento de ator premiado. "É porque eu me importo." "É porque tenho medo de te perder." E o medo de perder, quando não é encarado de frente, vira coleira, e coleira sufoca até o amor mais sincero, até estrangular justamente o que jurava proteger. A verdade que custei a engolir: a gente nunca "tem" outra pessoa. No máximo, a gente tem a sorte imensa de caminhar junto por um trecho, enquanto os dois escolherem, de livre e espontânea vontade, seguir caminhando.

Amar sem posse não é amar menos. É amar com mais coragem, a de um amor que cabe a liberdade dos dois. É querer o outro inteiro, ele mesmo, até nas partes que não giram em volta de você. E descobrir que ser amada assim, solta em vez de presa, é a forma mais leve e mais funda de ser amada. Sem precisar de senha do celular de ninguém.

 

Onde, na sua vida, "segurar" tem sido só um jeito bonito de dizer medo de soltar?