Cicatrizes não são defeito de fabricação

Tem marca que ninguém vê. Não está na pele, não rende foto, não tem data no prontuário. Mas dói mais que corte visível, e por muito tempo eu escondi as minhas como se fossem defeito de fabricação, a prova de que, em algum momento, eu tinha quebrado, vacilado, deixado a vida me atropelar quando "eu deveria ter sido mais forte" (aspas irônicas, por favor).

Passei anos tratando cicatriz como fracasso. Aquilo que eu não queria que ninguém descobrisse: as perdas, os erros, os amores que deram errado com estilo, as vezes em que fui pequena bem na hora em que me pediram grandeza. Eu achava que mulher inteira era mulher sem rachadura, tipo louça de vitrine. Que eu precisava chegar lisinha, impecável, sem histórico, como se a vida nunca tivesse me tocado. E gastava uma energia absurda passando maquiagem por cima do que já tinha vivido.

Levei um tempo pra sacar que a maquiagem por cima da marca cansava mais que a própria marca, porque esconder dá um trabalho danado, é praticamente um segundo emprego não remunerado. Hoje eu olho diferente. Cicatriz não é sinal de que algo deu errado. É sinal de que algo aconteceu, e que você continuou aqui depois, teimosa. Ela é a prova de que aquilo tentou te derrubar e não levou. Houve dor, sim, mas houve também resistência, um dia de cada vez até fechar. Pele sem marca nenhuma é pele de quem nunca se arriscou a viver de verdade, e sinceramente, essa pele lisa e vazia não me interessa mais.

E olha que sacada: no minuto em que você para de esconder a cicatriz, ela deixa de ser vergonha e vira história. E história a gente conta de cabeça erguida, às vezes com um orgulho tranquilo. Tem mais: quando a gente assume as próprias marcas, dá permissão pra outra mulher assumir as dela. A sua cicatriz à mostra vira alívio pra quem achava que era a única com uma.

 

Qual cicatriz sua você ainda esconde com medo de parecer menos? E se ela for, justamente, a prova de que você é mais?