Boa filha, boa esposa, boa mãe: as medalhas que fazem a coluna reclamar

Por anos eu colecionei títulos como quem coleciona ímã de geladeira: boa filha, boa esposa, boa mãe, boa profissional, boa em pilotar tudo ao mesmo tempo sem deixar cair. Cada medalha parecia uma honra, um selinho de "tá indo bem, continua assim". Só que ninguém me avisou do detalhe: penduradas todas juntas, elas pesam. E eu vivia levemente curvada, tipo ponto de interrogação humano, sem entender por que o corpo doía.

Olha, o problema nunca foi ser filha, esposa ou mãe. Amo várias dessas partes. O problema é quando o papel engole a pessoa. Quando some a mulher e sobra só a função: a que cuida, a que aguenta, a que lembra do aniversário de todo mundo, a que não pode falhar nem na gripe. O papel vira gaiola exatamente aí. E a gente, treinada desde pequena pra ser "boazinha", nem questiona, porque questionar parece ingratidão, e ninguém quer ser a vilã do próprio Natal.

Deixa eu te fazer uma perguntinha marota: quantas coisas você faz no automático? Não porque decidiu, mas porque "sempre foi assim", porque é o esperado, porque largar daria uma culpa do tamanho de um bode. Tem papel que a gente veste de manhã sem pensar, feito aquele sapato lindo e apertadíssimo que a gente insiste em calçar até esquecer que ele machuca, até tirar no fim do dia e ver a marca.

Não tô te mandando largar tudo e sumir numa praia (por mais tentador que soe às seis da tarde de uma segunda). Tô te convidando a olhar. A separar o que você escolhe carregar do que carrega só por hábito e medo de decepcionar. Porque medalha pendurada por escolha pesa diferente: uma dá orgulho, a outra vai entortando a coluna em silêncio.

Comigo funcionou assim: fui tirando os títulos do peito um por um e olhando cada um na mão, tipo quem faz faxina de armário e pergunta "isso ainda me serve ou tô guardando por dó?". Alguns recoloquei com carinho, agora por escolha. Outros, devolvi sem cerimônia. E juro que a coluna agradeceu.

 

Qual papel você desempenha hoje no piloto automático? Se começasse do zero, você o carregaria do mesmo jeito?