As chaves sempre estiveram com você (e estavam no fundo da bolsa)

Eu passei uns bons anos no modo "funcionária do mês da vida alheia". Boa filha, boa esposa, boa profissional, boa em tudo que exigisse esforço e não desse nenhum prazer. Cumpria a lista inteira todo santo dia com a certeza secreta de que, lá no fim, quando eu tivesse feito o suficiente, alguém ia bater palma e liberar a minha felicidade. Spoiler: a palma nunca veio. E, pior, eu vivia com aquela sensação de estar trancada em algum lugar sem saber onde ficava a saída.

Aí um dia, sem trilha sonora épica e sem raio de luz, eu descobri o óbvio: a porta nunca esteve trancada por fora. A chave estava comigo o tempo todo. No fundo da bolsa, junto com três batons secos, um comprovante de 2019 e meio biscoito. Esquecida embaixo de tanta obrigação que eu tinha até me convencido de que não existia.

Porque é isso: as amarras mais teimosas raramente são as de fora. São as que a gente instala sozinha, com capricho de quem monta móvel de loja sueca. O autojulgamento que não tira férias. Aquela voz baixinha, muito educada, que insiste que servir o outro vem primeiro e o seu prato fica pro final (frio). A regrinha de que descanso é coisa que se merece, nunca coisa a que se tem direito. Ninguém precisa nos prender quando a gente já faz o serviço tão bem, e ainda joga a chave longe pra dificultar.

Talvez você se reconheça aqui. Naquela espera por uma permissão que nunca chega: do parceiro, da mãe, do chefe, do universo, do famoso "quando as coisas se acalmarem" (elas não vão). A mulher que você quer ser não está do outro lado de uma aprovação. Ela tá aqui, batendo o pé, esperando você lembrar onde largou a chave.

Comigo começou assim. Sem grande ruptura, sem cena de novela, só um "peraí, fui eu que tranquei isso?".

 

Qual "regra" você segue hoje sem que ninguém nunca tenha mandado? E ela serve a quem você é, ou só ao seu medo de decepcionar?